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Como as baleias-jubarte aprendem e transmitem seus cantos complexos

Como as baleias-jubarte aprendem e transmitem cantos complexos nos oceanos.

NATUREZA E VIDA

DIAS, T.

2/11/2026

Os oceanos não são silenciosos. Em certas épocas do ano, regiões inteiras do mar são preenchidas por sequências sonoras longas, organizadas e repetitivas produzidas por baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae). Esses sons não são aleatórios. Eles seguem padrões estruturados que podem durar minutos e se repetir por horas.

Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a investigar como esses cantos são aprendidos e modificados ao longo do tempo. O que chamou atenção foi o fato de que diferentes populações compartilham padrões semelhantes e que essas sequências mudam coletivamente, sugerindo um processo de aprendizagem social.

Estudar como as baleias-jubarte aprendem e transmitem seus cantos ajuda a entender melhor a comunicação animal e amplia o debate científico sobre cultura em outras espécies.

Desenvolvimento

O que a ciência já sabe sobre os cantos das jubartes

Os cantos das baleias-jubarte são produzidos principalmente por machos durante a temporada reprodutiva. Essas vocalizações apresentam estrutura hierárquica: notas formam frases, frases formam temas e temas compõem uma canção completa (Payne & McVay, 1971).

Cada população pode compartilhar uma mesma versão de canto em determinado período. Ao longo dos meses, pequenas modificações se acumulam até que o padrão seja substituído por outro.

Estudos mostraram que essas mudanças não ocorrem de forma isolada. Em algumas regiões do Pacífico, novas versões de canto se espalharam entre populações ao longo de anos, como se fossem “ondas culturais” (Garland et al., 2011).

Como o processo ocorre na prática

Imagine um grupo de músicos que toca a mesma melodia. Com o tempo, alguém introduz pequenas variações. Se essas mudanças forem adotadas pelo grupo, tornam-se parte da nova versão da música.

Entre as baleias-jubarte, algo semelhante parece ocorrer. Um indivíduo pode introduzir variações no canto. Outros machos escutam, reproduzem e ajustam seus próprios sons para acompanhar a nova sequência.

Esse processo indica aprendizagem auditiva e imitação. Não há evidência de ensino deliberado, mas há transmissão social por observação e repetição.

Pesquisadores utilizam hidrofones — microfones subaquáticos — para registrar e analisar essas sequências. A comparação espectrográfica dos sons permite identificar padrões compartilhados entre indivíduos.

Evidências e limitações

A hipótese de cultura em jubartes baseia-se na definição de cultura como comportamento compartilhado socialmente e transmitido entre indivíduos (Garland et al., 2011).

No entanto, o termo “cultura” em animais ainda é debatido. Alguns cientistas preferem usar expressões como “aprendizagem social” para evitar comparações diretas com processos humanos.

Outra limitação é que a função exata dos cantos ainda não é totalmente compreendida. Acredita-se que estejam ligados à reprodução e competição entre machos, mas não há consenso absoluto sobre todos os aspectos funcionais.

Avanços científicos recentes

Com o uso de análise computacional e inteligência artificial, pesquisadores conseguem identificar padrões mais sutis nos cantos das jubartes. Modelos estatísticos ajudam a rastrear como determinadas variações surgem e se espalham.

Além disso, estudos comparativos mostram que mudanças de canto podem ocorrer de forma relativamente rápida em escala evolutiva, sugerindo flexibilidade comportamental significativa.

Essas descobertas contribuem para o entendimento da comunicação animal complexa e reforçam a importância de ambientes acústicos preservados.

Desafios e questões em aberto

Entre as principais perguntas em investigação estão:

– Como exatamente novas variações surgem?
– Existem indivíduos mais influentes na disseminação de mudanças?
– Qual o impacto da poluição sonora marinha nesses padrões culturais?

O aumento do ruído submarino, proveniente de navios e atividades industriais, pode interferir na propagação dos sons. Avaliar esses efeitos é um desafio crescente para a biologia marinha.

Impactos científicos e sociais conhecidos

O estudo da comunicação das baleias-jubarte ampliou o conceito de comportamento cultural além dos primatas. Ele sugere que processos de aprendizagem social podem ocorrer em diferentes grupos de vertebrados.

Além disso, pesquisas sobre sons dos oceanos influenciam políticas de conservação marinha, especialmente em áreas de reprodução.

Compreender como as baleias-jubarte aprendem e transmitem seus cantos também reforça a importância da preservação de habitats marinhos acústicos.

FAQ

1. Todas as baleias-jubarte cantam?
Não. O canto estruturado é produzido principalmente por machos durante a temporada reprodutiva.

2. Os cantos são iguais em todos os oceanos?
Não. Cada população pode ter versões próprias que mudam ao longo do tempo.

3. As jubartes ensinam seus filhotes a cantar?
Não há evidência de ensino formal. O aprendizado ocorre por escuta e imitação.

4. Quanto tempo dura uma canção?
Uma sequência pode durar vários minutos e ser repetida por horas.

5. O canto tem relação com reprodução?
Evidências sugerem ligação com comportamento reprodutivo, mas ainda há aspectos em estudo.

6. A poluição sonora afeta esses cantos?
Pesquisas indicam que ruídos artificiais podem interferir na comunicação subaquática.

Conclusão

As baleias-jubarte demonstram um sistema de comunicação estruturado e dinâmico. Seus cantos são modificados ao longo do tempo e compartilhados entre indivíduos, sugerindo processos de aprendizagem social.

Embora o conceito de cultura animal continue em debate, as evidências indicam que esses mamíferos marinhos possuem comportamentos transmitidos socialmente.

Estudar esses padrões amplia a compreensão sobre comunicação, evolução comportamental e conservação dos oceanos.

Fontes e Referências

Payne RS & McVay S., 1971. Songs of humpback whales. Science.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17814749/

Garland EC. et al., 2011. Dynamic horizontal cultural transmission of humpback whale song at ocean basin scales. Current Biology.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21835624/

Escrito e revisado por Thaís Ramos e equipe do MundoMicro.

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