O vínculo biológico entre cães e humanos: o que a ciência revela sobre ocitocina e conexão afetiva
O papel da ocitocina em cães e humanos na formação do vínculo afetivo entre espécies.
NATUREZA E VIDA
Quem convive com um cão costuma perceber mudanças sutis no próprio estado emocional durante interações simples, como um olhar prolongado ou um momento de carinho. A ciência tem investigado se essas sensações possuem base biológica mensurável. Estudos recentes mostram que a ocitocina em cães e humanos pode estar envolvida na formação e no fortalecimento do vínculo afetivo entre as duas espécies.
A ocitocina é um hormônio produzido no hipotálamo e liberado pela hipófise. Em humanos, está associada ao apego materno, à confiança e à cooperação social. Em cães, pesquisas indicam que mecanismos semelhantes podem ser ativados durante interações positivas com seus tutores. Esse achado ajuda a explicar por que a conexão emocional entre cães e humanos apresenta características comparáveis às relações sociais intraespécies.
Compreender esse fenômeno não significa atribuir emoções humanas aos animais, mas reconhecer que existem processos neurobiológicos compartilhados que sustentam a convivência entre espécies. A ciência da relação humano-cão tem avançado de forma consistente nesse campo, especialmente nas últimas duas décadas.
Desenvolvimento
O que a ciência já sabe sobre ocitocina e vínculo entre espécies
A domesticação do Canis lupus familiaris ocorreu ao longo de milhares de anos. Durante esse processo, características comportamentais que favoreciam a convivência com humanos foram selecionadas. Entre essas características, destaca-se a capacidade de manter contato visual prolongado, comportamento incomum em lobos adultos.
Um estudo conduzido por Nagasawa et al. demonstrou que a troca de olhares entre cães e seus tutores aumenta os níveis de ocitocina em ambos (Nagasawa et al. [Universidade de Azabu], 2015). O fenômeno foi descrito como um “ciclo positivo de ocitocina”, semelhante ao observado entre mães e bebês humanos.
Nesse experimento, os pesquisadores mediram a concentração do hormônio na urina antes e depois da interação. Os resultados indicaram que quanto maior o tempo de contato visual, maior o aumento hormonal. Esse achado sugere que o vínculo entre cães e humanos pode ser reforçado por um mecanismo fisiológico bidirecional.
É importante destacar que o estudo não afirma que cães e humanos experimentam emoções idênticas, mas indica que compartilham circuitos biológicos relacionados ao apego.
Como o processo ocorre na prática
A ocitocina atua tanto na circulação sanguínea quanto no sistema nervoso central. Quando ocorre uma interação positiva — como contato físico ou olhar prolongado — estímulos sensoriais são enviados ao cérebro. O hipotálamo responde liberando ocitocina, que atua em áreas associadas à recompensa e à regulação emocional.
Entre essas regiões estão a amígdala e o núcleo accumbens, estruturas envolvidas na percepção de segurança e recompensa social. Esse mecanismo ajuda a explicar por que a interação com um cão pode gerar sensação de bem-estar em humanos.
Em cães, estudos experimentais também avaliaram os efeitos da administração controlada de ocitocina intranasal. Resultados indicaram aumento na tendência de aproximação e comportamento social (Romero et al. [Universidade de Viena], 2014). Esses dados reforçam a relação entre oxitocina e comportamento animal em contextos sociais.
Entretanto, o efeito depende do contexto. Interações neutras ou negativas não produzem o mesmo padrão hormonal. O hormônio do apego em cães está associado principalmente a experiências positivas e previsíveis.
Evidências e limitações
Embora os dados sejam consistentes, existem limitações metodológicas. Muitos estudos utilizam amostras pequenas ou contextos laboratoriais controlados. A medição de ocitocina pode variar conforme o método utilizado e o momento da coleta.
Além disso, a ocitocina não atua isoladamente. Dopamina, serotonina e outros neurotransmissores também participam da experiência emocional. O vínculo entre cães e humanos é resultado de múltiplos sistemas interligados.
Outra questão relevante envolve a causalidade. Ainda se investiga se o aumento de ocitocina fortalece o vínculo ou se o vínculo pré-existente facilita o aumento hormonal. A hipótese mais aceita é que exista uma retroalimentação positiva entre comportamento e fisiologia.
Essas limitações não invalidam os resultados, mas indicam que o campo ainda está em expansão.
Avanços científicos recentes
Pesquisas mais recentes têm explorado diferenças individuais entre cães. Fatores como socialização precoce, experiências anteriores e até variações genéticas podem influenciar a resposta à ocitocina.
Estudos de neuroimagem funcional também mostraram que o cérebro de cães responde à voz do tutor com ativação em regiões associadas à recompensa (Andics et al. [Academia Húngara de Ciências], 2016). Embora o estudo não tenha medido ocitocina diretamente, reforça a ideia de que a conexão emocional entre cães e humanos envolve circuitos neurais complexos.
Além disso, há interesse crescente em compreender como esse mecanismo pode ter influenciado o sucesso evolutivo dos cães durante a domesticação. A capacidade de estabelecer conexão social com humanos pode ter oferecido vantagens adaptativas.
Desafios e questões em aberto
Ainda não está completamente claro se o circuito de ocitocina observado surgiu exclusivamente durante a domesticação ou se evoluiu a partir de comportamentos ancestrais dos lobos.
Outra questão envolve a variabilidade entre indivíduos. Nem todos os cães respondem da mesma maneira ao contato visual ou ao toque. Temperamento, idade e contexto social podem alterar a resposta hormonal.
Também permanece em debate até que ponto resultados laboratoriais refletem interações cotidianas. A ciência avança ao integrar experimentos controlados com observações comportamentais em ambientes naturais.
Essas perguntas mantêm o campo ativo e estimulam investigações interdisciplinares que envolvem etologia, neurociência e biologia evolutiva.
Impactos científicos e sociais conhecidos
O reconhecimento de que existe base biológica para o vínculo entre cães e humanos ajuda a compreender a profundidade dessa relação sem recorrer a interpretações simplificadas.
Do ponto de vista evolutivo, a cooperação entre espécies pode ter sido facilitada por mecanismos hormonais compartilhados. Essa hipótese reforça a ideia de que a domesticação não foi apenas utilitária, mas também relacional.
A ciência da relação humano-cão demonstra que processos biológicos podem sustentar conexões sociais complexas entre espécies distintas, ampliando o entendimento sobre comportamento animal e interação interespécies.
FAQ
1. O que é ocitocina?
É um hormônio produzido no cérebro que participa de comportamentos sociais e formação de vínculos afetivos.
2. Cães produzem ocitocina como humanos?
Sim. Estudos indicam aumento do hormônio durante interações positivas com tutores.
3. O contato visual influencia o vínculo?
Pesquisas mostram que a troca de olhares pode elevar os níveis hormonais em ambas as espécies.
4. A ocitocina explica todo o apego entre cães e humanos?
Não. Ela faz parte de um conjunto de sistemas neuroquímicos que atuam em conjunto.
5. Todos os cães respondem da mesma forma?
Há variações individuais relacionadas a genética, socialização e contexto.
6. Isso significa que cães sentem emoções iguais às humanas?
Os mecanismos fisiológicos podem ser semelhantes, mas as experiências subjetivas não são consideradas idênticas.
Conclusão
A investigação sobre a ocitocina em cães e humanos revela que o vínculo afetivo entre espécies possui fundamentos biológicos mensuráveis. A interação social, especialmente o contato visual e o toque, pode ativar circuitos hormonais que reforçam a proximidade.
Embora ainda existam limitações e perguntas em aberto, as evidências acumuladas indicam que a conexão emocional entre cães e humanos envolve sistemas neurobiológicos compartilhados.
À medida que novas metodologias surgem, a compreensão desse fenômeno tende a se aprofundar. A ciência continua explorando como processos fisiológicos moldam relações interespécies, ampliando o conhecimento sobre comportamento social.
Fontes e Referências
Nagasawa, M. et al. Oxytocin-gaze positive loop and the coevolution of human-dog bonds. Science, 2015.
https://www.science.org/doi/10.1126/science.1261022. Acesso em: 14/02/2026.
Andics, A. et al. Neural mechanisms for lexical processing in dogs. Science, 2016.
https://www.science.org/doi/10.1126/science.aaf3777. Acesso em: 14/02/2026.
Romero, T. et al. Intranasal oxytocin promotes social behavior in dogs. Proceedings of the Royal Society B, 2014.
https://royalsocietypublishing.org/doi/10.1098/rspb.2014.0053 . Acesso em: 14/02/2026.
Thaís Ramos Dias — médica veterinária (CRMV-SP 59927), editora científica do Mundo Micro
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